À um tempo atrás, enquanto fazia o meu passeio nocturno, senti que alguém se aproximava, mas aquela hora, seria natural. Fiz de conta que não era nada e continuei. Comecei a correr, um pouco de jogging nunca fez mal a ninguém, muito menos a mim. Parei nuns bancos azuis para descansar, bebi um pouco de água e levantei-me.
Corri mais um pouco, a noite estava quente, densa e misteriosa. Já eram duas da manhã, mas não me importei, corri e corri mais. Os paços voltaram a soar nos meus ouvidos. Tirei os phones, olhei e os meus olhos nada alcançaram além da escuridão. Devia ser a minha imaginação. Estava um calor incontrolável, peguei na garrafa e molhei-me da cabeça aos pés e foi quando sacudi o cabelo, depois de espremer o top, que te vi. O teu olhar profundo no meio da escuridão, o casaco preto, o brilho nos teus olhos. Vibrei, arrepiei-me totalmente, devagar comecei a sentir o teu cheiro… a hipnose começa e eu não lhe resisto.
Sinto as tuas mãos a embargarem a minha fuga impossível, eu não queria sair. O teu nariz toca a minha orelha ao de leve e sinto os teus lábios beijarem o meu pescoço húmido. Enlaças-me num abraço e o teu corpo junta-se ao meu, todo molhado da corrida e da água que me escorreu pelo corpo. Estavas tão quente, o teu sangue pulsava mesmo de baixo da tua pele, com uma força tão grande que fazia-me tremer de expectativa.
Depois não me lembro de mais nada, só me lembro de acordar em tua casa, com o teu pijama… ou melhor, com a tua camisa de dormir gigante, quente, no meio dos teus lençóis e na maior cama que alguma vez vi, ou melhor, que há muito tempo tinha perdido a esperança de voltar a ver, com uma dor de cabeça enorme, uns cabelos desgrenhados e molhados à minha frente e com uns braços enormes e quentes à minha volta. Não podia ser, se tivesse acontecido, eu quereria lembrar-me, porque não me lembro, porquê? Era só no que pensava. Até que me sinto zonza e desta vez, acordo mesmo. E lá estava eu, deitada no teu colo, no meio do chão, toda molhada e com o coração acelerado. Os teus olhos penetravam a minha mente de forma eloquente e deixei-me levar.
De tudo o que esperava nada se sucedeu. Simplesmente levaste-me para casa e agasalhaste-me, ligaste o aquecimento e foste dormir para o sofá… não estava à espera mas, de manhã, soube que esperaste que o efeito do doping passar para me olhares de novo e eu perceber o que me querias dizer, sóbria.
Foi tudo muito fácil, muito rápido. Os teus olhos falaram, eu amei e aceitei. A tua boca abriu-se e a minha língua não te deixou falar. Depois foi quase como um furacão, envolve-nos rápido mas demora a soltar-nos e foi assim, fizemos amor, ali na minha sala… horas a fio, sem comer, sem beber, sem nada, despidos de corpo e mente, entregues num rol de emoções e sensações.
Os nossos corpos gritaram num só grito e soltarmo-nos foi difícil e doloroso. Depois… depois veio a discussão. Gritaste-me por eu deixar de comer, gritaste-me por eu beber, por eu consumir drogas, por eu dormir acordada. Depois beijaste-me de novo e disseste que me amas e que nunca mais me vais deixar. Que não vou deixar comer, mas comeremos e que se tomar droga, tomaremos juntos, se beber, beberemos juntos… disseste que ser eu morrer, morreremos juntos.
Eu estou a morrer, os médicos estão aqui à minha volta e só oiço os bips das máquinas, ainda não ouvi a tua voz nem senti as tuas mãos. Será que tens outra, será que vais andar atrás dela como fizeste comigo, será que lhe vais jurar amor eterno? Sabes, estar em coma não é morrer e, se eu acordar, vou cobrar-te todas estas respostas e vou querer saber o porquê de não estares uma única vez presente.
Ouve, o meu ex-noivo, eu conheço o seu toque, uau, como cheira deliciosamente bem, acho que vou acordar e perguntar se me odeia, tenho de saber…
- Ó João, ó João, queria tanto saber se me o… estou a falar? Meu Deus, acordei!! Como te amo, porque é que te troquei?
- Porque escolheste a morte a viver para sempre! Eu ainda te amo, Maria!
Basicamente, esquecer é morrer. Só por isso é que nunca me esqueci de ti!
Filipa Teixeira.
3 comentários:
Parabéns, gostei muito !
Sim é realmente muito dificil perde-los, principalmente quando os amamos mais do que certas pessoas da nossa propria familia, faz hoje apenas tres semanas, e parece que é uma eternidade, mas os 14 anos que vivemos juntos passaram a correr, demasiado depressa visto que ele nasceu praticamente ao mesmo tempo que eu, por isso nao me lembro de o ver crescer. o facto de me ter despedido dele ajudou, mas as lagrimas de vez em quando caem e vao continuar a cair por muito, e muito tempo x:
obrigado por todos os comentários!
gostei muito das tuas opiniões, e o teu blog.. está bem melhor que o meu.
parabens
um abraço
Deixas-me sem palavras. Mas eu escrevo apenas o que sinto. E, infelizmente, é triste a minha personalidade e com ela, triste a minha escrita.
Agradeço imenso e de coração te digo que o que me dizes a mim, toca-me profundamente.
um abraço
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