sexta-feira, 25 de março de 2011

27th


                Já escrevi letras poéticas de sentimentos efémeros e injustificáveis, hoje escrevo as palavras ditadas de um orador sem sono. Vai orando sobre o meu peito, sem se acanhar, sem vergonha de orar. Ele dita no meu peito e eu escrevo suas palavras belas e sonoramente baixas no seu abdómen firme e trabalhado pelo suor da vida.
                Crescemos a pensar que rezaríamos com aptidão, desenfreados numa noite quente de verão, mas apenas nos deram o chão frio de um celeiro, onde guardamos o rebanho de sonhos claros e quentes que tivemos em crianças. Hoje aquecemos os nossos corpos nus nos fardos de palha, onde ninguém nos suprime por sermos pobres, apenas nos querem ricos de alma, enquanto nos tocamos cheios de frio e de amor. pagam-nos com migalhas de pão, e temos de suprimir a fome um contra o outro, estalando com sofreguidão.
                Quando me levantar tocarei no chão frio de cimento e terra, os nossos corpos nus vão deslizar pelas aguas cristalinas do rio e nos vestiremos com o que der, mas sairemos desta terra maldita, onde só os nossos corpos podem amar sem despeito.

Filipa Teixeira.

sexta-feira, 11 de março de 2011

26th


                É o grito de socorro, aquele que oiço todas as noites, nos mais ínfimos sonhos nocturnos, nos que me dizem nada e que perguntam sempre nada de mais… Eu pergunto-me “porque é que o oiço agora, porque é que o oiço de dentro de mim, mesmo acordada (?)” …
                Eu sei a resposta, mas abstenho-me de aceita-la e de o dizer a alguém, abstenho-me mesmo de lhe responder, ao pedido de socorro que me ecoa desde o ventre até ao coração.
                Não posso mais fingir que te desconheço, mas também não quero que saibas de onde vens. Esconde-te… Ó voz piedosa… Esconde-te, foge, foge de mim… foge dos meus medos, foge da regra de vida que levo, da resposta que te darei se te assumir!
                Porque não vais? Vai! VAI MEU GRITO! Meu grito belo e penoso… foge, foge de mim, do meu coração que só magoa e faz sangrar a veia preciosa do nosso sangue. Ó minha bela voz, porque não me ouves? Porque não atendes às minhas preces?! Vai, esconde-te, foge… ignora o meu ser que o teu junto do meu não será!
                Tenho medo, tenho medo que não me oiças e te percas em vez de te encontrares fora do meu ser insignificante e amargurado pela vida que nos suplica, tantas vezes, dores infinitas do nosso sangue, do nosso doce e ferrugento sangue… aquele sangue que nos corre nas veias, iguais, nas nossas veias…
                Ó meu Deus, porque Te suplico, se em Ti não acredito?! Mas atendei ao meu pedido, peço-Te que o atendas! Se Existes de facto, atendei ao meu mísero pedido, ao pedido de alguém ínfimo… mas que acredita que se Existes irás salvar esta alma tão penosa, esta alma que ainda não deu de si e já está predestinado a sofrer uma praga infâmia e ridícula.
                Se me atendeis, ouvi o que Te estou a pedir e salva alma pura e ingénua de meu filho, salva-o da minha vida, do meu sofrer penoso e sangrento. Fazei-o morrer, ou mata-me para que não nasça e me tenha como sua mãe, não lhe dês esse descrédito e ama-o como Teu filho, se dele ninguém será Pai!

Filipa Teixeira.
[Inspiração a partir de: “не плачь” e de “Почему так случилось?”(música)]