domingo, 31 de outubro de 2010

14th(com amor, verdadeiro)

O meu cabelo está todo oleoso, não me apeteceu lava-lo! Não, não saio à rua assim, é claro.
Amanha de manhã vou tomar um banho e relaxar, vou transpirar aquele cheiro do gel de banho, frutos silvestres e alfazema... a minha roupa vai ser discreta e não vou por sombra além do risco preto que delineia os meus olhos castanhos.
Vai ser um dia pesado. A tua mãe vai estar a chorar (aposto que já o fez hoje e que o faz todos os dias, por ti) a olhar para o teu lindo sorriso branco. Vai estar a chover, como todos os anos está e vou olhar para aquela vitrina e pensar Porquê, tu? E sei, perfeitamente, que em vez de ter uma resposta vou começar a chorar também e pensar que hoje podia aprender tanto contigo! Vou acender-te a minha vela, deixar-te o meu ramo de flores, vou despedir-me e vou levar-te no meu pensamento, tal como as lágrimas nos olhos.
Vou passar por tantas camas e janelas, vou olhar para cada uma ver a fotografia e as datas e vou chorar mais, mesmo que para dentro… nunca vi hotel tão horrível para se viver eternamente. Sim, tem uma vista linda, mas não compensa, pelo menos para as visitas.
Meu bem, hoje gostaria de ser como tu foste, aliás, como és. Tu deixaste-nos, mas continuas a mesma pessoa que conhecíamos até então. Adoraria ser a pessoa humilde, a pessoa carinhosa, a pessoa justa que és. Adoraria sair no jornal regional com a melhor média, aliás, média de excelência, a professora substituta dos teus professores da secundária e da universidade, resumindo, a pessoa inteligentíssima que és. Adoraria ser uma réplica tua mas, para mim, adoraria muito mais, ter-te comigo no Natal, na Páscoa, chatear-te e ir todos os dias de mochila às costas para Stª Clara e aborrecer-te com explicações. Hoje contento-me com as possibilidades(da pessoa fantástica e casada que continuarias e passarias a ser) e com o grande orgulho que tenho de ser tua prima.

Para Ti, Marta! Com todo o meu amor!
Rest in peace, my sweety!

Filipa Teixeira.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

13rd


Tudo começou quando ainda era uma menina. A vontade irresistível de pertencer a uma sociedade da qual ainda não fazia parte, sobressair no meu próprio meio como uma mulher!
Arrependida, passei dois anos da minha vida de médico em médico, hospitais, clínicas, psicólogos, psiquiatras uns dias em casa, outros recaídas, outro internada (nunca à força, nunca foi necessário). Suicídio e comprimidos passaram de probabilidades a opções do dia-a-dia.
Vou contar a minha história:
Tinha 13 anos, os enfeites nas histórias, para mim, eram verdades. Não as contava aos meus pais, sabia que era proibido. Era um tabu, mas era o passaporte para ser popular. Conheci o rapaz mais in da escolinha, sempre fui boa de couros, mesmo que antigamente o meu objectivo fosse um noivado (sonhos de criança), foi a minha deixa para atingir um nível mais perigoso da adolescência. Com as revistas que são vendidas a, supostamente, pré-adolescentes, aprendi que tinha de deixar o mundo cor-de-rosa do amor e passar a luta da sedução. Foi fácil, sempre soube que os rapazes pensam que nos estão a caçar, mas simplesmente fazemo-los pensar dessa forma, damos a entender que somos ingénuas (e era, mas já sabia o que queria), que estamos a cair na teia mentirosa do seu amor, mas simplesmente estamos a criar chão firme para um propósito próprio. Também eu já tinha desistido do amor, tão nova…
Aos olhos alheios tínhamos um namoro cheio de cumplicidades. Passamos a ser melhores amigos, é verdade. Mas nada na nossa relação, que começou a ser séria, influenciou o meu objectivo. Duas semanas depois consegui. A famosa dica ingénua do ‘tens umas músicas para eu ouvir?’ e lá fomos nós, para casa dele, um rapaz de 17 anos e eu, uma miúda de 13. Nem percebeu que eu é que tinha a ideia com que ele ficou depois da dica. Foi tudo muito estranho, ao inicio, até custou, mas a sensação foi passando de dor a um prazer que, obviamente, ainda não tinha descoberto na minha cara de criança disfarçada de mulher.
Poucos dias depois mandei o rapaz passear. Para quê andar com um chato que só sabe jogar PS e matraquilhos… deixei de ser uma criança, tinha objectivos mais profundos, um olhar de mulher e respostas seguras de quem nunca perdeu a palavra. Então deixa-mos de ser namorados e, com isso, consegui o que queria. Em menos de 3 horas toda a gente in sabia que eu já não era virgem, além de ter namorado com o boss dos boss’s.
Os convites passaram a ser diários e nunca dormia com o mesmo rapaz dois dias seguidos, quando passei para a secundária foi tudo muito mais fácil, estava sempre longe do alcance dos meus pais e conseguia (des)fazer três camas num dia.
Deixou de ser um passaporte para ser uma imagem, da qual nenhuma mulher gosta de passar, mas eu estava-me a lixar. Já não conseguia passar sem um bom orgasmo. Se não conseguisse um satisfatório saia de casa desse e procurava outro, não era difícil, as curvas de mulher já eram distintas e provocantes, elas sim eram um passaporte. Arranjei emprego na primeira entrevista, era um homem e acabei por convida-lo a um café, no meu sofá…
Colegas da universidade, universitários em geral, colegas de trabalho, desconhecidos da noite, desconhecidos do centro comercial, rapazes, homens… tudo o que fosse uva doce eu trincava.
Na carteira trazia (trago) sempre o porta-moedas, duas caixas de preservativos, o maço de tabaco e um vibrador discreto com controlo remoto. Não podia passar sem nenhuma destas coisas, é uma necessidade incontrolável. As viagens longas, a reuniões que nunca mais acabam e não quero saber do que para lá dizem, as filas de espera, os semáforos, as compras, a falta de guarda-chuva… todas estas eventualidades eram preenchidas pelas duas ultimas necessidades da minha carteira, o maço e o vibrador.
Comecei a afastar-me dos poucos amigos que sabiam da minha dependência, que me alertavam, mas que eu não queria saber, para mim, não tinha dependência nenhuma. Para mim era um prazer da vida, saudável, como se lia e lê por aí… é verdade, mas para quem fica dependente de orgasmos múltiplos é um bilhete de saída do dito ‘problema’. Pelos vistos esqueceram-se de rotular o sexo como os maços de tabaco ‘Atenção, o sexo pode causar distúrbios sérios na sua saúde e nos que estão à sua volta!’.
Apaixonei-me por uma das minhas aventuras e só me apercebi disso quando o imaginava no lugar dos homens com quem fazia sexo, pensava nele quando acordava e em vez de o imaginar nu, em cima da cama pronto para a tornar numa arena de guerra, imaginava-o a dormir, agarrado a mim, quando me levantava e ia tomar café na sala enrolada no cobertor, imaginando-o com a escova de dentes ao lado da minha, a sujar o lavatório com a espuma de barbear e “caí na teia do amor”.
Apesar de ainda ter encontros casuais já não passava sem o lanche com ele, em vez do corpo oferecíamos torradas e em vez de gemidos trocamos palavras. Comecei a sentir-me preenchida, depois fui para fora, uma ida a Miami tornou o meu inglês quase perfeito e a minha língua muito mais poliglota, diria que nunca tinha estado com tantos estrangeiros, vi-me presa numa dependência muito mais profunda e quando voltei a casa toda a gente sabia, incluindo o homem que mais me fazia feliz.
Casou-se um mês depois, com uma sueca, comecei a dedicar-me à internet, conheci muitos mais homens do que passeando-me pela noite. Encontros atrás de encontros. Bebida, droga, o álcool e a moca eram o estado mais favorável à minha pobre existência, para completar experimentei a doce experiencia de ser acompanhante de luxo, carteira recheada e jogo a toda a minha volta, fiquei fascinada… Já a minha psiquiatra, que ainda estava no início de carreira, ficou chocada. Nunca viu tantos vícios juntos, experiencias macabras que nunca escreveria num desabafo esfarrapado. Sexo, muito, com homens e mulheres. Internet, horas de desespero à espera de e-mails sem jeito nenhum. Bebida, estados lamentáveis. Droga, o corpo a degradar-se. Jogo e dinheiro.
Hoje estou tratada, ou quase, na minha carteira está o maço de lenços, a chupeta da Maria, a carta do Alexandre e o meu livro de cheques. Agora sou casada, tenho uma filha pequena e o meu único vício é o amor pela minha filha e pelo meu marido.
Filipa Teixeira.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

12th

Cada vez vejo menos, cada vez menos(...). Podia ser da idade, mas não é, sou tão nova... mas a vista foge-me cada vez mais. Queria amar-te, o meu olhar já te amou tantas vezes, mas já não te consigo delinear quando estás à minha frente.
Sou um ser impotente, sem os meus olhos vai-se a cor, o movimento, o amor, a minha arte, minha paixão... nunca mais vou poder pegar num lápis, nunca mais vou poder apreciar e chorar com linhas exageradas, nunca mais poderei ler um livro, VER as letras pretas nas páginas semi-brancas.
A cegueira atinge-me devagarinho, mas depressa. Sinto-me consumida, um bocadinho mais, todos os dias.  
Será que os teus olhos ainda são castanhos, será que o teu cabelo ainda é claro, será que me olhas nos olhos sempre que te tento enxergar? Será que vou deixar de ver tudo o que amo? Porque é que me isto me está a acontecer a mim, porquê?
As dores de cabeça aumentam a cada dia, as letras vão diminuindo, por maiores que estejam, já não consigo perceber se é um 'Volta' ou um 'Vai'... espera, deixa-me limpar as lágrimas... não, a diferença não é muita!
É tão amargo... o sabor da cegueira, é tão... vazio. 
Vou desaparecer! Que ninguém me procure, pois se eu não consigo encontrar-vos, tão pouco quero ser encontrada.

Filipa Teixeira.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

11th

Hoje peguei nela sem obrigação, os meus dedos pediram a ajuda dos meus olhos que lhes abriram caminho e eles, os meus dedos, fizeram-na deslizar na folha de papel, sem hesitação. A pressão da minha mão fá-la ilustrar linhas, pontos e texturas suaves ou mais carregadas.
                Eu não ando sem ela, sinto-me incompleta, mesmo que não a use, eu trago-a! Deixa a mala toda suja, os meus dedos, o meu papel e, pouco depois, até as minhas maçãs do rosto estão sujas, mas eu adoro-a, ela é minha e prefiro-a a qualquer outro objecto marcante.
                O sonho que não posso viver, descrevo-o, se não for com palavras, será com imagens, ilustrações que, a meus olhos, são tão belas, por mais que digam que “Está um bocado ‘assim’” ou “O meu está melhor!”, pouco me importa, o mais importante é o que eu sinto ao faze-la deslizar seja numa mesa, numas escadas, num papel ou na parede do meu quarto.
                Hoje quero mostrar o quão confuso é, para mim, não amar tornando-me numa personagem distraída, vazia e sonhadora. Está tão… confuso(?)… era mesmo isso! Ela não me desapontou.
                O par perfeito seria eu, ela e o papel… sim contigo, Grafite minha. És o material que faz a minha arte prevalecer a meus olhos, continuando nos meus mais infinitos sonhos de criança.

Filipa Teixeira.

10th

Nunca pensei que fosse tão frustrante. Numa hora abanas a cabeça da falta de cuidado dos outros e depois... depois és tu que não dormes porque passaste o dia com enjoos, porque durante esse mês os teus peitos cresceram, porque pesam e doem, porque te sentes mais cansada do que o habitual, porque dormes muito, porque tens uma fome descontrolada e porque passas o dia com desejos de fruta, coisa de que nunca foste muito adepta(...).

Sim, é verdade, a depressão a chegar ao auge, a falta de uma noite descansada, os olhos inchados de tanto chorar, o pânico... Agora penso, também fui descuidada! Antes de dizer-mos 'Desta água não beberei!' temos de nos certificar de que tal não acontece.
É horrível sentir o ventre dorido, ao mesmo tempo uma alegria descomunal... É um prazer, sim, talvez... se tivesse condições de vida para o que vem a seguir!
Pior que tudo, é ver a outra metade culpada já noutra onda, a navegar que nem um 'desligado da vida', como se não pudesse ter deixado nada para trás... esquecido com o resto da bagagem que deixou em terra. Deixou tudo, tudo, tudo(!), menos o seu novo eu que, a meio da viagem marítima, atira as malas ao mar e joga-se como uma sereia para o deixar navegar sozinho.
Pior ainda, pior é que antes disso ele querer levar as duas ninfas, na sua viagem sem rota uma para amar com o coração e a outra para amar com o corpo.
Agora navega sozinho, mas quem pior se sentiu foi a ninfa, que ele queria amar com o seu corpo de Deus Grego,  que, apesar de não sentir a sua falta, chorou pensando que tinha grande parte dele dentro de si, a evoluir todos os dias, a crescer e a tornar-se em algo que, sem ele, poderia ir de bênção a tragédia pessoal.
Quando a menstruação não chega no seu devido tempo, o coração estala, bate tão forte que, sozinha, ia morrendo na ignorância do ser que supunha transportar dentro de mim.
Hoje, depois de quase superado o susto, digo: "Usa SEMPRE protecção, não só para garantir que não haverá uma gravidez prematura, mas, também, para conservares a tua própria pessoa que, na tua ingenuidade, foste um sacrifício, para a tua mãe!".
            Com a cabeça no sitio, serei a ninfa de mim mesma, sem ceder a caprichos alheios.

Filipa Teixeira.