Tudo começou quando ainda era uma menina. A vontade irresistível de pertencer a uma sociedade da qual ainda não fazia parte, sobressair no meu próprio meio como uma mulher!
Arrependida, passei dois anos da minha vida de médico em médico, hospitais, clínicas, psicólogos, psiquiatras uns dias em casa, outros recaídas, outro internada (nunca à força, nunca foi necessário). Suicídio e comprimidos passaram de probabilidades a opções do dia-a-dia.
Vou contar a minha história:
Tinha 13 anos, os enfeites nas histórias, para mim, eram verdades. Não as contava aos meus pais, sabia que era proibido. Era um tabu, mas era o passaporte para ser popular. Conheci o rapaz mais in da escolinha, sempre fui boa de couros, mesmo que antigamente o meu objectivo fosse um noivado (sonhos de criança), foi a minha deixa para atingir um nível mais perigoso da adolescência. Com as revistas que são vendidas a, supostamente, pré-adolescentes, aprendi que tinha de deixar o mundo cor-de-rosa do amor e passar a luta da sedução. Foi fácil, sempre soube que os rapazes pensam que nos estão a caçar, mas simplesmente fazemo-los pensar dessa forma, damos a entender que somos ingénuas (e era, mas já sabia o que queria), que estamos a cair na teia mentirosa do seu amor, mas simplesmente estamos a criar chão firme para um propósito próprio. Também eu já tinha desistido do amor, tão nova…
Aos olhos alheios tínhamos um namoro cheio de cumplicidades. Passamos a ser melhores amigos, é verdade. Mas nada na nossa relação, que começou a ser séria, influenciou o meu objectivo. Duas semanas depois consegui. A famosa dica ingénua do ‘tens umas músicas para eu ouvir?’ e lá fomos nós, para casa dele, um rapaz de 17 anos e eu, uma miúda de 13. Nem percebeu que eu é que tinha a ideia com que ele ficou depois da dica. Foi tudo muito estranho, ao inicio, até custou, mas a sensação foi passando de dor a um prazer que, obviamente, ainda não tinha descoberto na minha cara de criança disfarçada de mulher.
Poucos dias depois mandei o rapaz passear. Para quê andar com um chato que só sabe jogar PS e matraquilhos… deixei de ser uma criança, tinha objectivos mais profundos, um olhar de mulher e respostas seguras de quem nunca perdeu a palavra. Então deixa-mos de ser namorados e, com isso, consegui o que queria. Em menos de 3 horas toda a gente in sabia que eu já não era virgem, além de ter namorado com o boss dos boss’s.
Os convites passaram a ser diários e nunca dormia com o mesmo rapaz dois dias seguidos, quando passei para a secundária foi tudo muito mais fácil, estava sempre longe do alcance dos meus pais e conseguia (des)fazer três camas num dia.
Deixou de ser um passaporte para ser uma imagem, da qual nenhuma mulher gosta de passar, mas eu estava-me a lixar. Já não conseguia passar sem um bom orgasmo. Se não conseguisse um satisfatório saia de casa desse e procurava outro, não era difícil, as curvas de mulher já eram distintas e provocantes, elas sim eram um passaporte. Arranjei emprego na primeira entrevista, era um homem e acabei por convida-lo a um café, no meu sofá…
Colegas da universidade, universitários em geral, colegas de trabalho, desconhecidos da noite, desconhecidos do centro comercial, rapazes, homens… tudo o que fosse uva doce eu trincava.
Na carteira trazia (trago) sempre o porta-moedas, duas caixas de preservativos, o maço de tabaco e um vibrador discreto com controlo remoto. Não podia passar sem nenhuma destas coisas, é uma necessidade incontrolável. As viagens longas, a reuniões que nunca mais acabam e não quero saber do que para lá dizem, as filas de espera, os semáforos, as compras, a falta de guarda-chuva… todas estas eventualidades eram preenchidas pelas duas ultimas necessidades da minha carteira, o maço e o vibrador.
Comecei a afastar-me dos poucos amigos que sabiam da minha dependência, que me alertavam, mas que eu não queria saber, para mim, não tinha dependência nenhuma. Para mim era um prazer da vida, saudável, como se lia e lê por aí… é verdade, mas para quem fica dependente de orgasmos múltiplos é um bilhete de saída do dito ‘problema’. Pelos vistos esqueceram-se de rotular o sexo como os maços de tabaco ‘Atenção, o sexo pode causar distúrbios sérios na sua saúde e nos que estão à sua volta!’.
Apaixonei-me por uma das minhas aventuras e só me apercebi disso quando o imaginava no lugar dos homens com quem fazia sexo, pensava nele quando acordava e em vez de o imaginar nu, em cima da cama pronto para a tornar numa arena de guerra, imaginava-o a dormir, agarrado a mim, quando me levantava e ia tomar café na sala enrolada no cobertor, imaginando-o com a escova de dentes ao lado da minha, a sujar o lavatório com a espuma de barbear e “caí na teia do amor”.
Apesar de ainda ter encontros casuais já não passava sem o lanche com ele, em vez do corpo oferecíamos torradas e em vez de gemidos trocamos palavras. Comecei a sentir-me preenchida, depois fui para fora, uma ida a Miami tornou o meu inglês quase perfeito e a minha língua muito mais poliglota, diria que nunca tinha estado com tantos estrangeiros, vi-me presa numa dependência muito mais profunda e quando voltei a casa toda a gente sabia, incluindo o homem que mais me fazia feliz.
Casou-se um mês depois, com uma sueca, comecei a dedicar-me à internet, conheci muitos mais homens do que passeando-me pela noite. Encontros atrás de encontros. Bebida, droga, o álcool e a moca eram o estado mais favorável à minha pobre existência, para completar experimentei a doce experiencia de ser acompanhante de luxo, carteira recheada e jogo a toda a minha volta, fiquei fascinada… Já a minha psiquiatra, que ainda estava no início de carreira, ficou chocada. Nunca viu tantos vícios juntos, experiencias macabras que nunca escreveria num desabafo esfarrapado. Sexo, muito, com homens e mulheres. Internet, horas de desespero à espera de e-mails sem jeito nenhum. Bebida, estados lamentáveis. Droga, o corpo a degradar-se. Jogo e dinheiro.
Hoje estou tratada, ou quase, na minha carteira está o maço de lenços, a chupeta da Maria, a carta do Alexandre e o meu livro de cheques. Agora sou casada, tenho uma filha pequena e o meu único vício é o amor pela minha filha e pelo meu marido.
1 comentário:
desculpa não dizer nada há tanto tempo mas nem tenho tido descanso. sempre mil e uma coisas para fazer e neste caso a net deixa de ser prioridade .
confesso que o inicio deste teu texto me assustou, cheguei a pensar que pudesse ser real, para ti.
aliás os teus textos têm sempre esse efeito em mim. primeiro: é real. depois: ok, se calhar não é. por fim: mas podia ser.
Catarina Martins
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