sexta-feira, 8 de outubro de 2010

2nd

Porta Nº 4
Passo todos os dias naquela rua cinzenta, sem cor. A calçada antiga, com o lustro puxado de tantos pés ali passarem. Está vazia, quando não anda lá gente, parece que menos cor tem, o silêncio das casas torna os meus passos, a minha respiração e o bater do meu coração numa melodia agitada, com o volume no máximo.
            Lá está ela, no fundo da rua, a única cor que se destaca no meio do cinzento, o número 4, a porta azul marinho, com musgo a contrastar, a queimar os olhos, a acelerar-nos o coração. A alegria, a alegria dos meus lábios, dos meus olhos…
            Havia dias em que ficava parada, só a olhar, imaginava que segredos antigos, quantos risos, quanto amor e paixão haveria escondidos nas paredes, no chão, no tecto, quantas janelas, quantas poderiam, sequer, sobrepor-se à magnificiência dos mais belos segredos daquela porta. Aposto, que, se tivesse olhado por uma delas, não iria, sequer, imaginar toda a beleza daquelas histórias, irremediavelmente, estupendas, lindas e excitantes.
            Foi numa dessas tardes, em que não se distingue a cor da rua da do céu, que fiquei a contemplar a porta, a ver para além dela, apesar de fechada. Assustei-me, estaquei no chão, e olhei para todo aquele retracto impossível de desenhar, toda aquela beleza suprema era irreal. Levantei os olhos e olhei para ele, para aqueles olhos azuis e verdes, no mar, diria que não sabia se eram, realmente, os seus olhos ou mais uma beleza surreal da natureza.
            Aquele pescador, aquele homem, vive atrás daquela porta cheia de segredos e aqueles olhos escondem tantos segredos como aquela porta. Tantos segredos que, para os saber, passarei toda a minha vida atrás daquela porta, a seu lado.

(Texto destinado à avaliação de Português). 

Filipa Teixeira.

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