sexta-feira, 25 de março de 2011

27th


                Já escrevi letras poéticas de sentimentos efémeros e injustificáveis, hoje escrevo as palavras ditadas de um orador sem sono. Vai orando sobre o meu peito, sem se acanhar, sem vergonha de orar. Ele dita no meu peito e eu escrevo suas palavras belas e sonoramente baixas no seu abdómen firme e trabalhado pelo suor da vida.
                Crescemos a pensar que rezaríamos com aptidão, desenfreados numa noite quente de verão, mas apenas nos deram o chão frio de um celeiro, onde guardamos o rebanho de sonhos claros e quentes que tivemos em crianças. Hoje aquecemos os nossos corpos nus nos fardos de palha, onde ninguém nos suprime por sermos pobres, apenas nos querem ricos de alma, enquanto nos tocamos cheios de frio e de amor. pagam-nos com migalhas de pão, e temos de suprimir a fome um contra o outro, estalando com sofreguidão.
                Quando me levantar tocarei no chão frio de cimento e terra, os nossos corpos nus vão deslizar pelas aguas cristalinas do rio e nos vestiremos com o que der, mas sairemos desta terra maldita, onde só os nossos corpos podem amar sem despeito.

Filipa Teixeira.

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